Em 1891, a Igreja olhou para a fábrica e entendeu que o problema não era apenas a máquina a vapor. A grande questão era o trabalhador, sua dignidade, a pressão exercida pela indústria e a relação de poder que estava sendo construída naquele novo mundo do trabalho.
Em 2026, essa pergunta volta. Só que agora o trabalhador cabe dentro de uma interface. O operário deixou de ser apenas quem movimenta máquinas. Hoje ele também trabalha com conhecimento. E o capataz, em muitos casos, pode ser um agente de inteligência artificial.
Por isso, acredito que já não faz sentido discutir se a IA vai entrar na sua empresa. Essa discussão acabou. A pergunta agora é quando ela vai assumir um papel decisivo na cultura da sua organização?
Foi exatamente essa preocupação que me chamou a atenção na nova encíclica Magnifica Humanitas, publicada pelo Papa Leão XIV. Mais do que discutir tecnologia, o documento fala sobre a salvaguarda do ser humano na era da inteligência artificial. E essa preocupação faz muito sentido.
Os dados de um estudo da Universidade de Stanford ajudam a explicar isso. Hoje, 88% das organizações já utilizam inteligência artificial, segundo estudos internacionais. Quase um em cada quatro trabalhadores ocupa funções com algum grau de exposição à IA generativa. E, até 2030, cerca de 59% da força de trabalho precisará passar por processos de requalificação, seja por meio de upskilling ou reskilling.
Acredite em mim, não é uma questão de escolher usar ou não usar IA. Ela já está presente. Inclusive, muitos dos seus colaboradores provavelmente já utilizam essas ferramentas sem que a empresa tenha percebido. O grande ponto é que toda vez que uma tecnologia muda profundamente a forma como trabalhamos, ela também muda a nossa cultura.
Foi assim com a prensa de Gutenberg, que transformou nossa relação com a informação e com a verdade. Foi assim com a Revolução Industrial, que mudou nossa percepção de tempo e produção. A eletricidade nos fez trabalhar também durante a noite. O automóvel alterou nossa relação com as cidades. A internet inaugurou a economia da atenção.
Agora chegou a vez da inteligência artificial. E, na minha visão, ela vai mudar aquilo que sempre foi exclusivamente humano: o julgamento. É exatamente aí que mora o maior risco. Uma coisa é utilizar IA para acelerar tarefas. Outra, completamente diferente, é permitir que ela se torne a responsável pelas decisões mais importantes dentro das organizações.
Quando uma IA recomenda uma demissão, quem responde por isso? Quando ela define quem será contratado ou promovido, quem assume esse julgamento? Quando um feedback é produzido por inteligência artificial, quem garante que ele representa, de fato, aquilo que a liderança pensa? E quando a IA aumentar significativamente a produtividade, a empresa utilizará esse ganho para desenvolver pessoas ou simplesmente substituir profissionais por algoritmos? Essas perguntas parecem tecnológicas, mas são profundamente culturais.
A encíclica faz uma analogia muito interessante com a Torre de Babel. Na história bíblica, havia unidade, linguagem comum e enorme capacidade de cooperação. Mas faltava coração. Em contraste, aparece Neemias, reconstruindo uma cidade com pessoas de diferentes origens, diferentes línguas e diferentes culturas, unidas por um propósito maior. Essa comparação nos leva a uma reflexão importante: tecnologia sem humanidade produz eficiência, mas não necessariamente produz uma cultura saudável.
E é justamente por isso que me preocupa ver tantas organizações adotando o discurso de serem AI First. Será que isso é bom? Depende. Se a inteligência artificial começar a definir aquilo que antes dependia do discernimento humano, quem estará construindo a cultura da empresa? As lideranças ou os algoritmos?
Na prática, alguns riscos já podem ser percebidos. O primeiro é criar uma cultura de velocidade acima do discernimento. Quando apenas a rapidez é valorizada, decisões superficiais passam a ser recompensadas. O segundo é colocar métricas acima da dignidade. Se tudo vira indicador, score ou algoritmo, o ser humano deixa de ser protagonista e passa a ser apenas mais um dado. Outro risco é a automação substituir a aprendizagem. Se a IA resolve tudo, ninguém mais precisa desenvolver competências. A empresa ganha velocidade, mas perde evolução.
Também me preocupa uma cultura em que inovação vale mais do que consequência. Nem toda inovação representa progresso. Quando deixamos de avaliar o impacto social das nossas decisões, corremos o risco de construir organizações tecnologicamente avançadas, mas humanamente frágeis.
Por isso, acredito que o desafio não é impedir o avanço da inteligência artificial. O desafio é garantir que a cultura continue sendo conduzida por pessoas. Se uma empresa deseja ser AI First, ela precisa definir, antes de qualquer tecnologia, qual será o seu nível de humanidade. Pode parecer estranho dizer isso, mas faz todo sentido: quanto de humano eu quero preservar dentro da minha cultura organizacional?
Essa resposta precisa aparecer na cultura desejada da empresa, traduzida em comportamentos observáveis. Também será necessário deixar claro quais decisões jamais poderão ser tomadas sem curadoria humana. Contratações, promoções, avaliações de desempenho, desligamentos, políticas de crédito, compliance, segurança e todas as decisões de alto impacto precisam continuar tendo responsabilidade humana.
Além disso, acredito que algumas premissas precisam ser inegociáveis. Nenhuma decisão crítica deve acontecer sem supervisão humana. Nenhum ganho de produtividade obtido com IA deveria existir sem um plano de requalificação para as pessoas impactadas. E nenhuma inovação deveria tornar o ser humano invisível ou irrelevante dentro da organização.
Confesso que, quando comecei a estudar inteligência espiritual aplicada ao mundo do trabalho, nunca imaginei que chegaríamos a esse ponto da história. Mas chegamos. Estamos vivendo uma transformação que vai muito além da tecnologia. Estamos discutindo quem definirá o comportamento das organizações nas próximas décadas. No futuro, todos usarão inteligência artificial. O grande ponto não é esse.
A pergunta que realmente importa é outra. Teremos uma cultura humana forte o suficiente para sustentar a inteligência artificial ou deixaremos que a inteligência artificial passe a definir a nossa cultura?
Adeildo Nascimento é economista formado pela UFPR, com especialização em Gestão de Pessoas e Liderança, com atuação em empresas nacionais e multinacionais, incluindo Bosch, GVT, HSBC, MadeiraMadeira e Fiep. Também é fundador DHEO Consultoria, especializada em cultura organizacional. www.dheoconsultoria.com.br e www.adeildo.com


