Eu tenho observado, com frequência crescente, um tipo de liderança que engana à primeira vista. É o líder carismático, articulado, admirado, mas que, longe dos holofotes, concentra poder e cria dependência. Chamo esse perfil de líder predatório performático. Ele parece desenvolver pessoas, mas, na prática, enfraquece todo o sistema ao seu redor.
Aprendi ao longo da minha trajetória que líderes de verdade distribuem capacidade. Já os tóxicos, mesmo quando bem disfarçados, centralizam resultados e créditos. E cultura organizacional não se sustenta em discurso. Ela se revela nos comportamentos que são tolerados e replicados diariamente, especialmente no topo. Se a empresa cresce, mas apenas uma pessoa se fortalece, o custo dessa distorção sempre chega.
As ideias do psicólogo organizacional Adam Grant ajudam a entender esse cenário. Ele classifica líderes como givers, matchers e takers. Os givers contribuem genuinamente; os matchers operam na lógica da troca; já os takers agem em benefício próprio. Mas é o quarto tipo, que observo na prática, o mais perigoso, É o taker performático, que simula generosidade para se perpetuar no poder.
Esse líder não precisa gritar ou humilhar. Pelo contrário, ele é sofisticado, empático, inspirador no discurso. Mas usa as relações como instrumento de controle. Com o tempo, deixa um rastro de desgaste profissional e humano.
Também vejo empresas cometerem erros recorrentes. Um deles é romantizar o líder excessivamente generoso, que evita conflitos e, sem perceber, cria times acomodados. Outro é não identificar o falso colaborador, aquele que ajuda, mas cobra depois, criando dependência estratégica.
Na prática, a análise precisa ser mais direta: meus líderes formam sucessores ou dependentes? Os créditos são distribuídos ou concentrados? O risco é compartilhado ou empurrado para a base?
Para mim, a resposta define tudo. O melhor líder não é o giver ingênuo, mas o estratégico, aquele que desenvolve, desafia e fortalece o coletivo. Cultura é ativo. E, no fim, é ela que sustenta ou destrói qualquer organização.
Adeildo Nascimento é economista formado pela UFPR, com especialização em Gestão de Pessoas e Liderança, com atuação em empresas nacionais e multinacionais, incluindo Bosch, GVT, HSBC, MadeiraMadeira e Fiep. Também é fundador DHEO Consultoria, especializada em cultura organizacional. www.dheoconsultoria.com.br e www.adeildo.com


