Você chega ao fim do dia cansada pois resolveu problemas, respondeu mensagens, trabalhou, cuidou de coisas da casa, lembrou de compromissos, tomou decisões e deu conta de uma série de pequenas demandas que, somadas, ocuparam praticamente todas as suas horas.
Mas, quando finalmente para, em vez de pensar em tudo o que fez, sua cabeça começa a listar o que ficou faltando. Aquela mensagem que você esqueceu de responder, a atividade física que não conseguiu fazer, a conversa que precisava ter, a tarefa que poderia ter terminado, o tempo que gostaria de ter dedicado aos filhos, ao parceiro ou a si mesma, dentre muitas outras. E, de repente, um dia inteiro de esforço parece não ter sido suficiente.
É curioso como podemos ser tão eficientes em identificar nossas pendências e, ao mesmo tempo, tão pouco disponíveis para reconhecer nossas realizações.
Talvez você conheça essa sensação de estar sempre fazendo alguma coisa, mas raramente sentir que fez o bastante. É como se existisse uma lista invisível de exigências que nunca termina e, toda vez que você consegue cumprir uma parte dela, novos itens aparecem.
O problema é que, quando vivemos assim, a sensação de dever cumprido vai ficando cada vez mais distante.
A régua que nunca para de subir
Existe uma diferença importante e significativa entre querer fazer bem as coisas e sentir que nada do que fazemos é bom o suficiente.
Ter objetivos, assumir responsabilidades e desejar melhorar faz parte da vida. A autocobrança, em alguma medida, pode nos ajudar a organizar prioridades, persistir diante das dificuldades e reconhecer aspectos que precisamos desenvolver.
Mas o que acontece quando essa cobrança se torna a principal maneira de nos relacionarmos conosco?
Quando um resultado positivo é rapidamente minimizado, porque poderia ter sido melhor? Quando um elogio parece exagerado, mas uma crítica permanece na nossa cabeça por muitos dias? Quando aquilo que conseguimos realizar deixa de ser motivo de satisfação e passa a ser apenas o mínimo esperado?
Aos poucos, podemos começar a funcionar como se estivéssemos sempre em dívida. Se produzirmos bastante, pensamos que deveríamos ter produzido mais. Se descansamos, sentimos que estamos desperdiçando tempo. Se cometemos um erro, ele parece ter mais peso do que todos os acertos anteriores.
E assim vamos criando uma relação com nossas próprias conquistas em que quase nunca existe espaço para satisfação e comemoração. Não porque não fazemos o suficiente, necessariamente, mas porque a maneira como avaliamos o que fazemos torna muito difícil reconhecer qualquer coisa como suficiente.
Quando a cobrança parece necessária
Uma das razões pelas quais é tão difícil diminuir a autocobrança é que, muitas vezes, acreditamos que precisamos dela. Talvez você já tenha pensado: “Se eu não me cobrar, vou acabar me acomodando”. Ou: “Se eu pegar leve comigo, vou deixar tudo para depois”. Para algumas pessoas, a cobrança se tornou tão presente ao longo da vida que parece impossível imaginar outra forma de se manter responsável e comprometida.
É como se existissem apenas duas possibilidades: ser exigente consigo mesma o tempo todo ou simplesmente deixar de se importar. Mas será que essas são realmente as únicas alternativas?
Pense em como você costuma agir quando alguém de quem gosta enfrenta uma dificuldade. É possível que você consiga reconhecer o esforço dessa pessoa, considerar as circunstâncias, compreender que ela tem limites e, ainda assim, incentivá-la a continuar tentando.
Por que, então, quando se trata de você, a compreensão parece desaparecer?
Às vezes, acreditamos que a dureza nos mantém em movimento, sem perceber o quanto ela também pode nos desgastar. Afinal, é possível alcançar resultados importantes e, mesmo assim, viver constantemente insatisfeita, ansiosa ou com medo de falhar.
O fato de a cobrança acompanhar nossas conquistas não significa que seja ela, necessariamente, a responsável por tudo o que conseguimos.
O que fica de fora quando olhamos apenas para o que falta
Existe algo especialmente difícil nessa maneira de viver: ela pode nos afastar da percepção da nossa própria experiência. Quando estamos sempre concentradas no próximo compromisso, na próxima meta ou no próximo problema a resolver, corremos o risco de atravessar os dias sem perceber o que aconteceu de bom no caminho.
Não se trata de ignorar as pendências, fingir que tudo está bem ou abandonar responsabilidades. As coisas que ficaram por fazer continuam existindo e, muitas vezes, precisam mesmo da nossa atenção. Mas elas não precisam ser a única medida do nosso dia.
Talvez você não tenha conseguido concluir tudo o que planejou porque surgiu um imprevisto, porque alguém precisou de você, porque uma tarefa levou mais tempo do que imaginava ou simplesmente porque estava cansada e não tinha a mesma disposição de outros dias. Nada disso significa, automaticamente, que você falhou.
Somos muito rápidos em transformar limitações circunstanciais em julgamentos sobre quem somos. Um dia menos produtivo pode virar a sensação de ser desorganizada, uma tarefa esquecida pode se transformar em uma acusação de irresponsabilidade ou uma dificuldade pode ser interpretada como incapacidade. E, quando isso acontece repetidamente, deixamos de avaliar apenas nossas ações e começamos a colocar nosso próprio valor em questão.
E se o suficiente não fosse uma linha de chegada?
Talvez uma das mudanças mais importantes seja perceber que a sensação de suficiência nem sempre aparece quando finalmente conseguimos fazer tudo. Até porque, na vida real, quase sempre haverá alguma coisa esperando, sempre existirão mensagens para responder, assuntos para resolver, planos para realizar e aspectos de nós mesmas que gostaríamos de desenvolver. Se condicionarmos a possibilidade de descansar, sentir satisfação ou reconhecer nosso esforço ao momento em que tudo estiver concluído, talvez esse momento nunca chegue.
Isso não significa desistir de melhorar ou deixar de reconhecer aquilo que precisa mudar. Significa apenas considerar que podemos continuar crescendo sem transformar cada etapa da vida em uma prova de que ainda não somos boas o bastante.
Talvez seja possível olhar para um dia e reconhecer, ao mesmo tempo, que algumas coisas ficaram pendentes e que muitas outras foram realizadas. Que poderíamos ter feito algo diferente e que, ainda assim, fizemos o melhor que conseguimos com os recursos disponíveis naquele momento. Que existem responsabilidades importantes, mas também existem limites. E que descansar não precisa ser uma recompensa reservada apenas para quando não houver mais nada a fazer.
Hoje, quando chegar ao fim do dia, talvez valha experimentar uma pergunta diferente.
Em vez de olhar apenas para tudo o que ficou faltando, tente perceber também o que você fez, o que precisou enfrentar, o que exigiu esforço e o que conseguiu sustentar, mesmo que ninguém tenha visto. Não para criar mais uma tarefa na sua rotina, nem para se obrigar a pensar positivamente. Mas para lembrar que um dia não é feito apenas das coisas que ficaram por fazer. E você também não pode ser medida apenas por aquilo que ainda falta.


