Existe uma expectativa silenciosa de que, em algum momento da vida, deveríamos aprender a lidar muito bem com tudo o que sentimos. Não ficar tão ansiosos. Não perder a paciência. Não sofrer tanto com algumas coisas. Não pensar demais. Não deixar que uma crítica estrague o dia. Não levar determinadas situações tão a sério. Como se amadurecer emocionalmente significasse chegar a um lugar em que as emoções difíceis finalmente deixassem de nos afetar tanto.
Só que esse lugar (muito) provavelmente não existe.
Podemos aprender muito sobre nós mesmos, fazer terapia, desenvolver recursos para lidar com situações difíceis e, ainda assim, sentir ansiedade antes de uma conversa importante. Podemos saber que uma determinada situação não está sob nosso controle e continuar preocupados com ela. Podemos compreender perfeitamente por que alguma coisa aconteceu e continuar tristes. Podemos até perceber que estamos reagindo de maneira desproporcional e, mesmo assim, não conseguir simplesmente parar de sentir, Isso porque emoções não funcionam como um interruptor no qual ligamos e desligamos quando queremos. Entender o que estamos sentindo não faz necessariamente aquilo desaparecer.
O problema é que, muitas vezes, além de lidar com a própria emoção, começamos a lutar contra o fato de estarmos sentindo aquilo. Ficamos ansiosos e pensamos que não deveríamos estar ansiosos. Ficamos tristes e nos cobramos porque já deveríamos ter superado. Sentimos raiva e nos incomodamos por termos nos deixado afetar tanto. Temos medo e nos julgamos por não conseguirmos simplesmente enfrentar.
E então passamos a carregar duas coisas: aquilo que sentimos e a sensação de que estamos sentindo errado.
Talvez seja por isso que falar em “controlar as emoções” possa ser tão enganoso. A ideia de controle sugere que estar emocionalmente bem seria conseguir escolher o que sentir, diminuir aquilo que incomoda e recuperar rapidamente algum estado de equilíbrio.
Mas nem sempre precisamos sentir menos. Existem momentos em que a tristeza faz sentido. Situações em que a raiva nos mostra que algo importante foi ultrapassado. Momentos em que o medo nos pede atenção. E existem experiências que realmente são difíceis, dolorosas ou frustrantes e diante das quais talvez não haja nenhuma técnica capaz, ou necessária, de produzir tranquilidade imediata. Às vezes, a vida simplesmente dói.
Isso não significa que precisamos entregar nossas decisões às emoções. Há uma diferença importante entre reconhecer aquilo que sentimos e agir de acordo com qualquer impulso que aparece.
Podemos estar com raiva e decidir esperar antes de responder. Podemos sentir medo e ainda assim ter uma conversa necessária. Podemos estar ansiosos e seguir para uma situação importante sem esperar que a ansiedade desapareça primeiro. Podemos sentir tristeza e entender que, naquele momento, talvez precisemos diminuir o ritmo em vez de fingir que está tudo bem.
Talvez seja isso que torne a ideia de regulação emocional mais interessante quando ela deixa de ser sinônimo de controle. Não se trata necessariamente de fazer uma emoção ir embora, mas de conseguir permanecer diante dela tempo suficiente para decidir o que fazer.
E isso nem sempre é fácil.
Quando uma emoção vem com muita intensidade, nosso impulso costuma ser fazer alguma coisa rapidamente. Responder. Fugir. Resolver. Evitar. Buscar alguma garantia de que ficará tudo bem. Qualquer coisa que diminua aquele desconforto.
Às vezes funciona. Pelo menos por alguns minutos.
Outras vezes, na tentativa de não sentir, começamos a organizar nossa vida ao redor daquilo que queremos evitar. Não temos determinada conversa para não sentir ansiedade. Não colocamos um limite para não sentir culpa. Não tentamos algo novo para não correr o risco de fracassar. Procuramos certezas que ninguém pode nos dar porque não queremos conviver com a dúvida. Aos poucos, aquilo que fazemos para evitar uma emoção pode começar a nos limitar mais do que a própria emoção.
Por isso aprender a lidar melhor com o que sentimos não é apenas por conhecer técnicas para se acalmar. Mas também nos conhecermos o suficiente para perceber quando estamos reagindo a uma situação e quando estamos apenas tentando escapar do desconforto que ela provoca.
Passa por entender que nem todo pensamento que surge em um momento de ansiedade precisa ser tratado como uma previsão. Que nem toda vontade provocada pela raiva precisa virar uma atitude. Que sentir medo não significa necessariamente estar diante de um perigo. E que algumas tristezas não precisam ser resolvidas imediatamente.
No texto anterior, falei sobre aquele pequeno espaço que existe entre sentir alguma coisa e agir a partir dela. E regular as nossas emoções é, em grande parte, aprender a permanecer um pouco mais nesse espaço.
Não para analisar cada sentimento, controlar cada reação ou encontrar sempre a resposta perfeita. Mas para que exista, mesmo nos momentos difíceis, alguma possibilidade de escolha.
Continuaremos nos irritando, nos preocupando, sentindo medo, tristeza, frustração e todas as outras emoções que fazem parte de estar vivo. Em alguns dias lidaremos muito bem com elas. Em outros, nem tanto. Equilíbrio emocional não é chegar a um ponto em que nada mais nos desorganiza. Mas sim quando percebemos que podemos nos desorganizar e encontrar novamente um caminho. Quando podemos sentir sem precisar fugir imediatamente do que sentimos.
E, principalmente, que aquilo que acontece dentro de nós importa, merece ser ouvido, mas não precisa decidir sozinho aquilo que faremos depois.


