Ansiedade, medo, raiva, tristeza e culpa podem ser desconfortáveis. Mas, talvez o problema não esteja simplesmente em senti-las
Se pudéssemos escolher quais emoções sentir ao longo de uma semana, provavelmente algumas ficariam de fora. Ninguém acorda desejando sentir ansiedade antes de uma reunião importante, raiva depois de uma discussão, culpa por algo que fez ou tristeza diante de uma decepção.
Por isso, é compreensível que tenhamos aprendido a dividir as emoções em duas grandes categorias: as boas, que queremos sentir, e as ruins, das quais gostaríamos de nos livrar.
Mas as emoções não funcionam exatamente assim. Elas não surgiram para nos fazer sentir bem o tempo todo. Surgiram, entre outras coisas, para nos ajudar a perceber o que acontece dentro e fora de nós e a responder ao ambiente.
O medo nos prepara diante de uma possível ameaça. A raiva pode aparecer quando percebemos injustiça, invasão de limites ou algum obstáculo importante. A tristeza costuma acompanhar experiências de perda e pode nos levar a diminuir o ritmo, recolher-nos e buscar apoio. A culpa pode nos fazer rever uma atitude e reparar um dano. Até a ansiedade, tão frequentemente tratada como inimiga, tem uma função importante: antecipar possibilidades e nos preparar para aquilo que pode acontecer.
Isso não significa, é claro, que toda emoção apareça na intensidade adequada ou que sempre produza respostas úteis.
Nosso sistema emocional pode disparar diante de uma ameaça que não existe, reagir com intensidade muito maior do que a situação exige ou permanecer ativado quando o perigo já passou. Experiências anteriores também influenciam aquilo que aprendemos a perceber como ameaça, rejeição, fracasso ou abandono.
É justamente por isso que compreender uma emoção é diferente de simplesmente obedecer a ela.
Sentir não é o mesmo que agir
Talvez uma das distinções mais importantes quando falamos de saúde emocional seja compreender que sentir alguma coisa não significa necessariamente precisar agir de acordo com aquilo que sentimos. A raiva pode trazer vontade de gritar, assim como o medo pode despertar o impulso de fugir. A culpa pode nos fazer questionar nossas escolhas e a ansiedade pode encher nossa cabeça de previsões sobre tudo o que pode dar errado. Mas nenhuma dessas emoções, por si só, determina o que precisamos fazer, nem comprova que aquilo que estamos pensando corresponde à realidade.
Uma emoção é uma experiência. Ela traz informações, sensações físicas, pensamentos e impulsos para agir, mas não é uma ordem. Podemos sentir raiva e escolher conversar. Podemos sentir medo e ainda assim seguir em frente. Podemos sentir culpa e avaliar se realmente fizemos algo que precisa ser reparado. Podemos sentir ansiedade e reconhecer que aquilo que nossa mente está antecipando talvez nunca aconteça.
É justamente nesse espaço entre aquilo que sentimos e aquilo que fazemos que começa a existir a possibilidade de escolha. Quando não percebemos essa diferença, podemos acabar vivendo de duas maneiras: reagindo automaticamente ao que sentimos ou fazendo de tudo para não sentir.
E as duas podem trazer dificuldades.
Há quem evite conversas porque não quer sentir desconforto. Quem deixa de tentar porque não quer lidar com a possibilidade de fracassar. Quem aceita situações que não gostaria para evitar culpa. Quem ocupa cada minuto do dia para não entrar em contato com a tristeza.
No curto prazo, evitar uma emoção pode trazer um grande alívio sim. No longo prazo, porém, nossa vida pode começar a ficar organizada em torno daquilo que não queremos sentir.
Geralmente a primeira pergunta que vem é “como faço isso passar?”
Quando uma emoção desconfortável aparece, é comum que nossa primeira reação seja querer que ela vá embora. Diante da ansiedade, da tristeza, da raiva ou do medo, pensamos quase automaticamente: “Como faço para parar de sentir isso?”. É compreensível. Afinal, ninguém gosta de permanecer em um estado de desconforto. Mas talvez essa nem sempre seja a pergunta mais útil.
Antes de tentar fazer a emoção desaparecer, podemos tentar entender o que está acontecendo. O que estou sentindo? O que aconteceu para que eu me sentisse assim? O que essa emoção está me levando a fazer? Essa reação faz sentido para a situação que estou vivendo? E, talvez mais importante, o que eu gostaria de fazer mesmo sentindo tudo isso?
Mudar as perguntas não significa gostar de emoções difíceis, muito menos romantizar o sofrimento ou acreditar que precisamos simplesmente aceitar qualquer estado emocional sem fazer nada a respeito. Significa reconhecer que nem sempre precisamos travar uma batalha contra aquilo que sentimos. Em alguns momentos, tentar eliminar rapidamente uma emoção pode nos afastar justamente da possibilidade de compreendê-la e responder a ela de uma maneira mais adequada.
Podemos aprender, aos poucos, a nos relacionar de outra forma com nossas emoções. Porque saúde emocional não significa passar a vida sentindo apenas coisas agradáveis. Significa também desenvolver recursos para atravessar o desconforto quando ele aparece, compreender o que está acontecendo conosco e escolher como queremos responder sem precisar fugir de toda emoção difícil e sem deixar que aquilo que sentimos decida, sozinho, o que faremos em seguida.


