A campanha eleitoral esquentou, com ataques de parte a parte e a tradicional batalha judicial, em que os candidatos terceirizam à Justiça o papel de dizer que algo é mentira, em vez de dizerem eles mesmos. No Paraná, até o momento, os eleitores não viram um embate direto entre os principais concorrentes na disputa, pois o líder nas pesquisas*, Sergio Moro (PL), faltou aos dois debates que seriam realizados (Band e TMC). Sem a presença do adversário, Sandro Alex (PSD) optou por não ir ao segundo encontro, transformando o evento da TMC em uma sabatina com Requião Filho (PDT).
Dessa forma, os paranaenses só assistiram ao embate entre os candidatos do PDT e PSD na Band, que foi bastante morno, com os participantes exagerando na defesa do legado de seus padrinhos políticos: Sandro Alex com Ratinho Junior e Requião Filho com o pai, o ex-governador Roberto Requião. Um olhar bastante focado no retrovisor, sem falar sobre o que está à frente.
As faltas de Moro aos debates repetem uma estratégia manjada em eleições. O líder faz o cálculo de que há mais a perder do que a ganhar em um confronto aberto com os adversários. Em justificativa para as ausências, o candidato do PL alega um acordo PSD-PT (este parte da coligação de Requião Filho) para atacá-lo, tentando se isolar como o polo da “verdadeira direita” na disputa. Também chegou a citar o governador Ratinho Junior (PSD), que faltou a debates realizados na sua campanha para reeleição, em 2022.
Mas, para além da retórica de Moro, não há muita base para nenhuma das afirmações. A tentativa de polarizar a eleição entre uma suposta batalha entre “direita e esquerda” simplesmente não cabe no Paraná. Sandro Alex e seu padrinho político são, sem sombra de dúvida, de direita. E já dividiram palanques com o bolsonarismo no Estado. A tentativa de replicar por aqui o que acontece no cenário nacional é uma argumentação fraca, sem muita chance de prosperar, tanto na análise política quanto na cabeça do eleitorado.
Já a comparação com Ratinho Junior em 2022 também é descabida, pois o governador disputava a reeleição. E nessa etapa, o pleito acaba virando uma espécie de plebiscito do governante, com o eleitor decidindo se o atual mandatário merece ou não mais quatro anos. Em miúdos: o paranaense conhecia Ratinho Junior, acompanhava o que ele vinha fazendo e foi para as urnas ciente disso. Sergio Moro foi juiz da Lava Jato, ministro da Justiça de Jair Bolsonaro e senador. O eleitor não o conhece o suficiente para um cargo no Executivo. E isso é um ponto que será certamente explorado pelos adversários.
Aqui é importante explicar que estou fazendo uma discussão pragmática, em cima de escolhas e possíveis resultados. Filosoficamente, a prática de faltar aos debates é condenável. O eleitor merece saber quais são os planos dos seus candidatos para os próximos quatro anos. E como eles se posicionam quando questionados sobre suas práticas, ideias e convicções. É algo salutar na democracia e que não deveria ser apenas uma arma em busca de um resultado eleitoral.
Retomando o pragmatismo, a tática de Sergio Moro de preservar o que tem, em vez de tentar aumentar a base e buscar liquidar a fatura no primeiro turno, também pode se mostrar arriscada. Até as pedras da Praça Nossa Senhora de Salete sabem que a esmagadora maioria dos eleitores de Requião Filho não vai migrar para o candidato do PL em um eventual segundo turno contra Sandro Alex. E, ciente de que receberei julgamento de eleitores do candidato do PDT, afirmo que minha aposta é que a força da máquina política de Ratinho Junior e do PSD vão levar Sandro Alex para o segundo turno com Moro.
Caso eu acerte, o candidato do PL estará em uma segunda disputa com uma chance quase nula de conquistar o espólio de Requião Filho, que é majoritariamente de esquerda e com forte tendência anti-Moro. E disputando contra um adversário que tem um padrinho político com avaliação alta e capilaridade com prefeitos no interior, além da moral de ter arrancado de 3º colocado, com menos de dois dígitos nas pesquisas há poucos meses, para concorrente no segundo turno. Também me perdoem os eleitores do candidato do PL, mas esse seria um cenário em que eu aposto na vitória de Sandro Alex.
Lula, Flávio Bolsonaro e a situação da eleição presidencial
A estratégia de faltar aos debates também é usada na eleição presidencial, com os dois líderes nas pesquisas se ausentando no encontro da Band e não garantindo presença nos próximos embates.
Também, mais uma vez, destaco que, aqui, faço uma análise pragmática da situação. Repito que filosoficamente é reprovável faltar aos debates e que os eleitores merecem mais de quem está procurando representá-los.
Mas a verdade é que, no cenário nacional, o quadro é completamente diferente do paranaense. Se por aqui Moro e Sandro Alex competem basicamente pela mesma faixa do eleitorado (direita), nacionalmente o quadro é de polarização completa. São lulistas x bolsonaristas, com uma faixa cada vez menor de “nem-nem”.
Para Lula e Flávio, o primeiro turno é de consolidação da base e estancamento de perdas por causa de escândalos. Cada campanha procura lembrar os BOs do outro lado, ignorando a concorrência. Participar de um debate nesse cenário implica baixa probabilidade de ganho político com alto risco de gafes ou mau desempenho.
Vale ressaltar que, num segundo turno que se desenha como cada vez mais acirrado, a tática de faltar aos debates seria algo próximo a suicídio eleitoral. E não deve ser adotada por nenhum dos dois concorrentes. E isso valerá tanto para a eleição ao Governo do Paraná quanto para à Presidência do Brasil.
Dados obrigatórios da pesquisa
A pesquisa Quaest (CNPJ: 22.445.600/0001-04) foi contratada pela RPC (CNPJ: 76.494.806/0001-45), afiliada da TV Globo no Paraná, e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número PR-05388/2026. Foram ouvidos 804 eleitores entre os dias 20 e 23 de agosto, com margem de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%. O custo informado do levantamento é de R$ 104.319.


