Quando pensamos em turismo, normalmente lembramos dos destinos, dos atrativos, dos hotéis, dos restaurantes e das experiências que motivam as pessoas a viajar. Mas o desenvolvimento turístico começa muito antes da chegada do visitante. Ele está presente nas decisões sobre infraestrutura, mobilidade, segurança, qualificação profissional, investimentos, inovação e desenvolvimento econômico.
Essa é uma reflexão importante para o Paraná, especialmente em um momento em que temos a oportunidade de discutir novos caminhos para o crescimento do Estado e fortalecer o trabalho que já vem sendo desenvolvido no setor.
Em um artigo recente, abordei a importância da continuidade das políticas públicas de turismo, destacando o papel da Secretaria de Estado do Turismo e do Viaje Paraná. A repercussão desse tema mostrou o quanto o setor está atento ao seu futuro e à necessidade de preservar conquistas, conhecimento e relacionamentos construídos ao longo dos últimos anos.
Mas existe uma discussão que merece avançar: além de contar com instituições estruturadas e profissionais preparados, o turismo precisa participar cada vez mais das decisões estratégicas que influenciam o desenvolvimento do Estado.
O turismo é uma atividade transversal. Isso significa que seu crescimento não depende exclusivamente das ações desenvolvidas pelos órgãos responsáveis pelo setor. Ele está diretamente relacionado a políticas e investimentos realizados em diferentes áreas da administração pública, muitas vezes sem que essa conexão seja imediatamente percebida.
Quando o Estado planeja melhorias em rodovias, por exemplo, não está apenas facilitando o deslocamento de moradores e mercadorias. Pode também estar ampliando o acesso a destinos turísticos, criando oportunidades para municípios do interior e estimulando novos investimentos privados.
Quando desenvolve políticas de inovação e tecnologia, pode contribuir para a modernização dos serviços turísticos, para a utilização de dados na gestão dos destinos e para a criação de soluções que melhorem a experiência dos visitantes.
Na agricultura, a valorização da produção local pode fortalecer roteiros de turismo rural e gastronômico. Na cultura, a preservação do patrimônio e o incentivo às manifestações culturais ajudam a construir a identidade dos destinos. No esporte, competições e eventos podem movimentar a hotelaria, a gastronomia e os serviços. Na educação, a formação profissional contribui para melhorar a qualidade do atendimento e a competitividade do setor.
Esses exemplos mostram que o turismo não precisa estar presente apenas nas discussões diretamente relacionadas à promoção de destinos. Ele pode contribuir para o planejamento de diferentes políticas públicas, oferecendo uma perspectiva econômica e territorial que amplia as possibilidades de desenvolvimento.
É importante compreender, entretanto, que a integração entre diferentes áreas do governo não significa a necessidade de concentrá-las em uma mesma estrutura administrativa. O turismo possui características, demandas e objetivos específicos, que exigem planejamento, conhecimento técnico e capacidade de atuação própria. A existência de uma secretaria dedicada ao setor permite dar visibilidade a essas necessidades, estabelecer prioridades e manter uma interlocução direta com os diferentes segmentos da cadeia turística.
A cultura é um exemplo dessa relação de complementaridade. Turismo e cultura compartilham oportunidades importantes, especialmente na valorização do patrimônio, das manifestações culturais e da identidade dos destinos. Mas também possuem responsabilidades distintas. Enquanto a política cultural contempla a preservação, o acesso e o fomento à produção artística, o turismo precisa responder a desafios relacionados à competitividade dos destinos, promoção comercial, conectividade, atração de visitantes e desenvolvimento econômico. A cooperação entre essas áreas pode ser fortalecida sem que uma precise perder sua autonomia institucional.
O Paraná já percorreu diferentes caminhos na organização administrativa do turismo e, desde 2023, voltou a contar com uma secretaria própria. Esse histórico reforça a importância de avaliar não apenas eventuais ganhos administrativos de uma reorganização, mas também seus possíveis impactos sobre a continuidade das políticas públicas, a capacidade de execução e o relacionamento com o mercado. Preservar uma estrutura especializada não significa resistir a mudanças, mas reconhecer que decisões institucionais precisam considerar o conhecimento acumulado, as demandas do setor e os resultados que se pretende alcançar.
Entretanto, essa integração precisa ir além do discurso. É necessário criar condições para que as diferentes áreas do governo compartilhem informações, identifiquem oportunidades e desenvolvam projetos conjuntos, respeitando suas competências e prioridades.
O Paraná possui realidades regionais bastante distintas. As necessidades de um destino consolidado, como Foz do Iguaçu, são diferentes daquelas encontradas em municípios que ainda estão estruturando seus produtos turísticos. Da mesma forma, regiões com vocação para o turismo de negócios e eventos podem apresentar demandas diferentes das regiões que trabalham com turismo rural, religioso ou de natureza.
Por isso, o planejamento integrado também precisa considerar as características de cada território. Uma mesma solução dificilmente atenderá a todas as regiões com a mesma eficiência.
Nesse processo, as Instâncias de Governança Regional, os Convention & Visitors Bureaux, as entidades representativas, os municípios e a iniciativa privada podem contribuir com informações sobre as necessidades dos destinos, as oportunidades de mercado e os desafios enfrentados por quem atua diretamente na atividade turística.
Essa aproximação entre poder público e setor produtivo é fundamental, mas precisa ter objetivos claros. O diálogo deve contribuir para identificar prioridades, construir soluções viáveis e acompanhar resultados. Afinal, reunir diferentes instituições em torno de uma pauta é importante, mas transformar essa articulação em ações concretas é o que efetivamente pode gerar desenvolvimento.
Outro aspecto que merece atenção é a utilização de informações e indicadores no planejamento turístico. Conhecer o perfil dos visitantes, compreender os fluxos turísticos, identificar oportunidades de investimento e acompanhar os resultados das ações de promoção são práticas que ajudam a orientar decisões e utilizar melhor os recursos disponíveis.
Quando essas informações são compartilhadas e analisadas de forma integrada, podem contribuir não apenas para as políticas de turismo, mas também para decisões relacionadas à infraestrutura, mobilidade, qualificação profissional e desenvolvimento regional.
É importante reconhecer que essa integração não começa do zero. O Paraná já possui instituições, iniciativas de governança e experiências de articulação entre o poder público e a iniciativa privada. O desafio está em fortalecer essas conexões, identificar onde existem oportunidades de aprimoramento e ampliar a capacidade de transformar planejamento em resultados.
Também não se trata de atribuir ao turismo uma importância maior do que a de outras áreas. Pelo contrário, trata-se de reconhecer que o desenvolvimento econômico e social depende da colaboração entre diferentes setores, e que o turismo pode ser um importante beneficiário e, ao mesmo tempo, um parceiro dessas políticas.
O turismo tem a capacidade de conectar atividades econômicas, valorizar características regionais e ampliar oportunidades para empresas e profissionais de diferentes segmentos. Mas esse potencial não se transforma automaticamente em desenvolvimento. É preciso planejamento, investimento, qualificação, promoção e capacidade de execução.
O Paraná tem condições de avançar nessa direção, aproveitando o conhecimento acumulado, as estruturas existentes e a diversidade de seus destinos. Para isso, é fundamental que o turismo continue ampliando sua participação nas discussões sobre o futuro do Estado, contribuindo com propostas e colaborando na construção de soluções.
Mais do que estar presente nas decisões sobre turismo, precisamos reconhecer o turismo nas decisões que constroem o desenvolvimento do Paraná.
Porque um destino turístico não se desenvolve apenas quando é promovido. Ele se desenvolve quando diferentes áreas trabalham de forma integrada para torná-lo mais acessível, competitivo, preparado e capaz de gerar oportunidades para sua população.
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