Nem sempre quem está sofrendo consegue pedir ajuda. Aprender a perceber mudanças, oferecer espaço para uma conversa e saber quando é preciso agir também é uma forma de cuidado.
Setembro se tornou o mês em que falamos com mais frequência sobre saúde mental e prevenção do suicídio. O Setembro Amarelo cumpre um papel importante ao colocar em discussão um tema que, durante muito tempo, foi cercado de silêncio e tabu.
Mas, a prevenção não acontece apenas quando alguém chega a um consultório ou pede ajuda de maneira explícita. Ela também pode começar muito antes, nas relações que construímos com as pessoas ao nosso redor.
Nem sempre quem está sofrendo consegue dizer que não está bem. E nem sempre quem percebe o sofrimento sabe como se aproximar.
Diante de alguém que amamos passando por um momento difícil, é comum surgir uma reação quase automática: tentar ajudar. Perguntamos o que aconteceu, oferecemos conselhos, buscamos soluções ou garantimos que aquilo vai passar. A intenção é boa. Mas, em algumas situações, a tentativa de ajudar pode acabar produzindo o efeito contrário.
Frases como “não é para tanto”, “isso passa”, “você precisa ser forte” ou “tente pensar positivo” podem parecer reconfortantes para quem as diz. Para quem está sofrendo, porém, podem transmitir outra mensagem: talvez eu não devesse estar me sentindo assim.
E quando a pessoa percebe que sua dor será imediatamente minimizada, julgada ou transformada em um problema que precisa ser resolvido, pode simplesmente deixar de falar.
Escutar também é uma forma de cuidado
Cuidar da saúde mental de alguém não significa assumir a responsabilidade por fazer com que aquela pessoa fique bem. Muitas vezes, o primeiro passo é oferecer presença e espaço para que ela consiga expressar o que está vivendo.
Perguntar “você está bem?” é importante. Mas também é preciso estar disposto a ouvir uma resposta diferente de “sim”. Um “tudo bem?” respondido rapidamente pode esconder cansaço, tristeza, ansiedade, medo, desesperança ou uma dificuldade que ainda não encontrou palavras. Por isso, demonstrar que a pergunta é verdadeira, e não apenas uma formalidade, pode fazer uma grande diferença.
“Você quer conversar sobre isso?” ou “tenho percebido que você não parece muito bem ultimamente. Tem alguma coisa acontecendo?” são formas de abrir uma porta sem obrigar ninguém a atravessá-la.
A pessoa pode não querer conversar naquele momento. Respeitar esse limite também é cuidado. Podemos apenas deixar claro que continuamos disponíveis.
Observe também aquilo que não é dito
Nem sempre alguém vai dizer claramente: “não estou bem”. Por isso, mais do que procurar um sinal específico, vale prestar atenção em mudanças importantes em relação à maneira como aquela pessoa costumava ser.
Isolamento, abandono de atividades que antes davam prazer, alterações importantes de sono ou apetite, queda no rendimento, aumento do consumo de álcool ou outras substâncias, irritabilidade, desesperança ou falas recorrentes sobre inutilidade, culpa, morte ou sobre ser um peso para os outros merecem atenção.
Nenhum desses comportamentos, isoladamente, pode indicar alguma dificuldade específica, todos eles devem ser compreendidos dentro de um contexto, avaliando a duração e a intensidade. Mudanças intensas ou persistentes são um motivo para nos aproximarmos.
E existe uma diferença importante entre observar e vigiar.
Em vez de transformar a preocupação em interrogatório com perguntas do tipo “o que está acontecendo com você?” podemos partir daquilo que percebemos: “Tenho notado que você está mais distante nas últimas semanas e fiquei preocupado. Como você está?”
A mensagem pode passar a ser interpretada como “estou percebendo você”.
Nem toda dor precisa de um conselho
Existe uma tendência de associarmos cuidado à resolução de problemas. Se alguém está sofrendo, queremos descobrir o que fazer para acabar com aquele sofrimento. Só que emoções não funcionam como problemas matemáticos.
Às vezes, a pessoa já sabe o que precisa fazer, mas ainda está tentando lidar emocionalmente com a situação. Em outras, sequer consegue organizar os pensamentos o suficiente para pensar em soluções. Nesses momentos, estar por perto, ouvir e demonstrar disponibilidade pode ser muito mais útil do que apresentar uma lista de conselhos.
Isso não significa ser passivo diante do sofrimento. Significa compreender que acolher e resolver são coisas diferentes.
Também não precisamos encontrar a frase perfeita. Muitas vezes, dizer “eu não sei exatamente o que falar, mas estou aqui para te ouvir” é mais acolhedor do que tentar oferecer uma resposta para uma dor que não é nossa.
Quando a preocupação exige mais atenção
Quando há falas sobre não querer mais viver, desejo de morrer, sensação de ser um peso, despedidas incomuns, comportamentos de risco ou outros sinais que façam surgir uma preocupação concreta com suicídio, o medo de ser invasivo não deve impedir uma conversa mais direta.
Perguntar com cuidado se a pessoa está pensando em se machucar ou em tirar a própria vida não “coloca a ideia na cabeça” de alguém. Ao contrário, pode criar uma oportunidade para que um sofrimento que estava escondido finalmente seja verbalizado.
Se houver risco imediato, aquela já não é uma situação para tentar administrar sozinho. É necessário buscar ajuda profissional e serviços de emergência e evitar deixar a pessoa sozinha enquanto houver risco à sua segurança.
E quando sugerir terapia?
Também é possível incentivar alguém que amamos a procurar ajuda profissional, mas a forma como fazemos isso importa. Dizer simplesmente “você precisa de terapia” pode ser recebido como crítica, cobrança ou até como uma maneira de encerrar a conversa.
Uma alternativa é oferecer ajuda sem impor: “Se você quiser conversar com um profissional, posso te ajudar a procurar alguém.”
A diferença parece pequena, mas comunica algo importante: eu reconheço que você pode estar precisando de ajuda e estou disponível para caminhar ao seu lado, sem decidir por você.
Existem, entretanto, situações em que a busca por ajuda profissional não deve ser adiada, especialmente diante de sofrimento intenso, prejuízo importante na rotina ou preocupação com a própria segurança.
Cuidar também é aprender a permanecer
Talvez uma das formas mais difíceis de cuidado seja justamente aquela que não oferece uma solução imediata. Cuidar também é conseguir permanecer ao lado de alguém mesmo quando não sabemos exatamente o que dizer ou fazer. É ouvir sem transformar imediatamente a conversa em conselhos, perceber mudanças sem vigiar e respeitar o espaço do outro sem confundir esse respeito com indiferença. É oferecer ajuda sem fazer com que a pessoa se sinta incapaz e, principalmente, compreender que amar alguém não significa ter o poder de retirar toda a sua dor. Muitas vezes, o que podemos oferecer é presença, disponibilidade e a segurança de que ela não precisa atravessar um momento difícil sozinha.
O Setembro Amarelo nos lembra da importância de falar sobre prevenção ao suicídio. Mas talvez também possa nos lembrar de algo mais cotidiano: prestar atenção uns nos outros.
Podemos não ter respostas para tudo. Não somos responsáveis por resolver o sofrimento de quem amamos. Mas podemos construir relações nas quais alguém não precise atravessar um momento difícil acreditando que precisa escondê-lo.
Às vezes, o cuidado começa quando deixamos de perguntar apenas “como posso resolver isso?” e passamos a perguntar:
“Como posso estar com você enquanto você atravessa isso?”
Onde buscar ajuda
Se você está passando por um momento de sofrimento emocional intenso ou está preocupado com alguém próximo, não é preciso enfrentar essa situação sozinho.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Também é possível buscar atendimento em serviços de saúde, como Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e serviços de urgência e emergência. Muitas faculdades também contam com o serviço de clínica-escola e têm horários para atendimento psicológico.
Em situações de risco imediato à vida ou à segurança da pessoa, procure um serviço de emergência ou acione o SAMU pelo telefone 192.


