Confesso que um dado recente me fez parar para refletir com mais atenção sobre o que está acontecendo dentro das empresas brasileiras. O nível de engajamento dos trabalhadores chegou ao ponto mais baixo desde o início da série histórica da pesquisa Engaja S/A, realizada em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Hoje, apenas 39% dos profissionais se consideram engajados no trabalho. É uma queda de cinco pontos percentuais em relação a 2024.
À primeira vista, o número já chama atenção. Mas há algo ainda mais preocupante. Pela primeira vez, o levantamento calculou o impacto econômico do desengajamento. A combinação de turnover elevado e presenteísmo, quando o funcionário está presente, mas pouco produtivo, gera perdas estimadas em R$ 77 bilhões por ano. Em termos macroeconômicos, isso representa cerca de 0,66% do PIB brasileiro.
Durante muito tempo, muitas organizações acreditaram que o caminho para manter as pessoas motivadas estava nos benefícios. Bons salários, ambientes agradáveis, programas de clima organizacional, cafés melhores, escritórios modernos. Tudo isso continua sendo importante, claro. Mas a verdade é que o modelo perdeu força.
A relação das pessoas com o trabalho mudou, e mudou profundamente. Hoje, o engajamento não nasce do conforto. Ele nasce do sentido. Do significado que cada profissional encontra naquilo que faz todos os dias.
Outro ponto que costumo destacar é a confusão comum entre clima e cultura. Durante anos tratamos o clima organizacional como se ele fosse o fator principal. Na realidade, ele é consequência. O clima é apenas um subproduto da cultura. É a cultura que sustenta ou compromete a performance de uma empresa no longo prazo.
Quando olhamos novamente para o dado dos 39%, percebemos a dimensão do problema. Se apenas quatro em cada dez colaboradores estão realmente engajados, isso afeta diretamente resultados financeiros, atendimento ao cliente, produtividade e competitividade. O impacto pode até aparecer nos números da economia, mas dentro das empresas ele é ainda mais profundo.
Também estamos vivendo uma mudança importante no que diz respeito às competências profissionais. Durante muito tempo, valorizamos quase exclusivamente o conhecimento técnico. Hoje ele virou requisito básico. Quem não tem, simplesmente fica fora do jogo. O diferencial passou a estar no comportamento. É no comportamento que a cultura se manifesta. É ali que o engajamento verdadeiro começa a surgir.
Empresas que ainda operam com processos ultrapassados, estruturas rígidas e práticas pouco humanas acabam afastando as pessoas do propósito do trabalho. Muitos profissionais simplesmente deixam de encontrar sentido no que fazem. E quando não há significado, o comprometimento desaparece.
Acredito que existe uma responsabilidade clara nas lideranças. Cabe ao CEO, ao gestor, ao líder de equipe ajudar a resgatar essa conexão. Somos nós que precisamos dar significado ao trabalho das pessoas. Quando isso não acontece, o desengajamento inevitavelmente aparece.
Projetos estratégicos de cultura são, hoje, um dos poucos caminhos capazes de gerar engajamento consistente. E isso exige coerência entre discurso e prática das lideranças. Por isso insisto em um ponto que considero central para qualquer organização que pensa no futuro: cultura não é discurso. Cultura é estratégia.
Adeildo Nascimento é economista formado pela UFPR, com especialização em Gestão de Pessoas e Liderança, com atuação em empresas nacionais e multinacionais, incluindo Bosch, GVT, HSBC, MadeiraMadeira e Fiep. Também é fundador DHEO Consultoria, especializada em cultura organizacional. www.dheoconsultoria.com.br e www.adeildo.com


