Durante as recentes crises no mercado bancário, um padrão voltou a se repetir. As instituições com marcas consolidadas, presença forte e discurso de solidez sucumbiram a falhas de governança, liderança e cultura. Isso deixou ainda mais evidente algo que há tempos observo no mundo corporativo: reputação não sustenta estrutura, e branding não corrige cultura.
No setor financeiro, onde confiança é o principal ativo, a distância entre imagem e realidade interna se torna fatal. Não é a campanha institucional, nem o reposicionamento de marca, que evita colapsos. O que protege uma organização é critério, gestão de riscos, decisões técnicas e, principalmente, uma cultura construída sobre responsabilidade e liderança ativa.
Ilusão da blindagem
Existe, porém, um viés silencioso nas altas cúpulas. Quando os problemas aparecem, a reação é buscar grandes nomes, grandes consultorias, grandes marcas. Não necessariamente para resolver, mas para criar uma blindagem: se der errado, sempre é possível dizer que foi “a melhor do mercado”. Essa terceirização da responsabilidade é confortável, mas perigosa.
Cultura não funciona assim. Transformação cultural não é projeto de fornecedor, é projeto de liderança. Ela nasce do engajamento real do CEO, dos sócios, do conselho. Quando o topo não assume o protagonismo, qualquer iniciativa vira encenação corporativa: bonita no discurso, vazia na prática.
Sem liderança, mudança não acontece
Os números confirmam isso. A maioria dos projetos de mudança cultural fracassa, inclusive em grandes bancos e instituições financeiras. E o motivo é recorrente: ausência de liderança ativa e excesso de confiança em métodos prontos, frameworks globais e soluções de prateleira que ignoram contexto, história e comportamento.
Um estudo da Harvard Business Review aponta que entre 60% e 70% das iniciativas de mudança cultural fracassam. Já um relatório da McKinsey indicam que os casos bem-sucedidos têm um fator comum: envolvimento direto do principal executivo. Sem liderança ativa, não existe framework que sustente mudança, seja em banco, indústria ou qualquer outro setor.
No ambiente bancário, essa desconexão é ainda mais grave. Cultura frágil significa decisões mal tomadas, riscos subestimados, incentivos distorcidos. Nenhum manual de compliance compensa uma liderança que não dá exemplo, e nenhuma consultoria substitui a coerência entre discurso e prática.
Por isso, sempre reforço: marca não transforma cultura organizacional. O que transforma é critério, é presença, é projeto estratégico bem conduzido e sustentado pelo topo. A crise dos bancos apenas escancarou o que vale para qualquer setor. Cultura é obra de autor. E esse autor tem nome, cargo e responsabilidade. É o líder.
Adeildo Nascimento é economista formado pela UFPR, com especialização em Gestão de Pessoas e Liderança, com atuação em empresas nacionais e multinacionais, incluindo Bosch, GVT, HSBC, MadeiraMadeira e Fiep. Também é fundador DHEO Consultoria, especializada em cultura organizacional. www.dheoconsultoria.com.br e www.adeildo.com
Fontes:
- https://hbr.org/2016/04/culture-is-not-the-culprit?language=pt
- https://www.mckinsey.com.br/capabilities/m-and-a/our-insights/ceos-in-m-and-a-five-actions-only-the-chief-executive-can-take


