Imagine que você recebeu uma mensagem de alguém importante para você dizendo apenas: “Depois precisamos conversar”.
São três palavras e nenhuma explicação. Você ainda não sabe o assunto, não sabe se aconteceu alguma coisa e, objetivamente, tem pouquíssimas informações. Mesmo assim, talvez seu corpo já tenha começado a reagir. O coração acelera um pouco, aparece um desconforto no estômago e a cabeça rapidamente tenta preencher aquilo que a mensagem deixou em branco.
Será que aconteceu alguma coisa? Será que fiz algo errado? Será que vem uma notícia ruim?
Em poucos segundos, uma frase relativamente simples pode produzir uma experiência emocional intensa. E isso acontece porque uma emoção é muito mais do que aquilo que costumamos chamar de “sentimento”. Quando ficamos ansiosos, com medo, com raiva ou envergonhados, não é apenas um pensamento que aparece. O corpo participa dessa experiência, assim como nossas lembranças, a maneira como interpretamos aquela situação leva em conta tudo aquilo que aprendemos ao longo da vida sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre o mundo. É também por isso que duas pessoas podem passar exatamente pela mesma situação e reagir de maneiras completamente diferentes.
Uma crítica no trabalho pode ser recebida por alguém como algo desagradável, mas administrável. Para outra pessoa, pode tocar em uma antiga sensação de não ser boa o suficiente. A demora de alguém para responder uma mensagem pode passar praticamente despercebida para uma pessoa e ser vivida por outra como sinal de rejeição. Uma conversa difícil pode provocar raiva em alguém, medo em outra pessoa e culpa em uma terceira.
Não reagimos apenas ao que acontece. Reagimos também ao significado que aquilo ganha para nós.
E esse significado é construído a partir da nossa história. Experiências anteriores deixam aprendizados, expectativas e formas de perceber determinadas situações. Se alguém viveu repetidas experiências de rejeição, por exemplo, pode se tornar especialmente sensível a sinais que indiquem uma possível rejeição no presente. Isso não significa que esteja escolhendo interpretar tudo dessa maneira. Muitas vezes, a reação simplesmente acontece.
Nosso estado naquele momento também importa. Uma situação que conseguimos administrar relativamente bem em um dia tranquilo pode parecer enorme quando estamos cansados, preocupados, sobrecarregados ou dormindo mal. Provavelmente todos nós já tivemos a experiência de reagir de maneira muito mais intensa a alguma coisa e, horas depois, pensar: “Por que aquilo mexeu tanto comigo?”.
Quando a emoção chega antes
Há uma razão para isso. Nosso sistema emocional precisa ser rápido. Diante da possibilidade de perigo, não seria muito eficiente se precisássemos analisar cuidadosamente todas as informações disponíveis antes de começar a reagir. Nosso organismo aprendeu a detectar sinais importantes e se preparar para responder.
Acontece que as ameaças da nossa vida atual não são apenas físicas. Podemos nos sentir ameaçados pela possibilidade de fracassar, de sermos rejeitados, criticados, abandonados ou humilhados. Às vezes basta uma expressão diferente no rosto de alguém, uma resposta mais seca, uma lembrança ou uma mensagem sem resposta para colocar esse sistema em movimento.
E, quando isso acontece, emoção, corpo e pensamentos podem começar a se alimentar mutuamente. Se estou ansiosa, posso perceber uma situação como mais ameaçadora. Ao enxergá-la dessa maneira, fico ainda mais ansiosa. Meu coração acelera, meu corpo fica tenso e essas próprias sensações podem funcionar como mais uma confirmação de que alguma coisa realmente está errada. É assim que, em alguns momentos, a emoção parece tomar conta.
Nessas horas, saber racionalmente que “não é para tanto” nem sempre ajuda. Podemos até reconhecer que estamos exagerando e, ainda assim, continuar sentindo. Talvez por isso frases como “se acalma”, “para de pensar nisso” ou “você está sofrendo por antecedência” tenham tão pouco efeito quando alguém está emocionalmente ativado. A pessoa muitas vezes já sabe de tudo isso. O problema é que saber não significa automaticamente conseguir sentir diferente.
E é justamente nesses momentos que aumenta a chance de fazermos alguma coisa apenas para diminuir rapidamente o desconforto. Respondemos uma mensagem no impulso, evitamos uma conversa, procuramos repetidamente alguém para nos tranquilizar, desistimos de algo que desejávamos fazer ou dizemos coisas das quais nos arrependemos depois. O alívio pode até vir. O problema é que, muitas vezes, ele dura pouco.
Talvez por isso aprender a lidar melhor com as emoções tenha menos a ver com impedir que elas apareçam e mais com conseguir reconhecê-las enquanto estão acontecendo. Com o tempo, podemos começar a perceber que determinadas situações despertam reações parecidas, que alguns pensamentos aparecem com frequência e que temos maneiras quase automáticas de responder quando sentimos medo, raiva, ansiedade ou tristeza. Essa percepção não faz a emoção desaparecer. Mas pode mudar o que acontece depois dela.
Existe um pequeno espaço entre sentir e agir. Em alguns momentos ele é suficientemente grande para conseguirmos pensar antes de responder. Em outros, parece tão curto que só percebemos que ele existia depois que já fizemos alguma coisa.
Uma parte importante da regulação emocional está justamente em aprender a ampliar esse espaço, aumentar nossa janela de tolerância às emoções.
Isso não significa controlar perfeitamente o que sentimos, nem conseguir impedir o coração de acelerar diante daquele “precisamos conversar”. A ansiedade talvez apareça. Os pensamentos talvez comecem a imaginar cenários. O corpo talvez reaja antes que tenhamos qualquer informação concreta.
Mas pode chegar um momento em que, em vez de imediatamente tentar resolver, fugir ou buscar uma resposta, conseguimos reconhecer o que está acontecendo: estou ansiosa porque não sei o que essa mensagem significa e minha cabeça está tentando preencher uma informação que ainda não tenho.
A situação externa continua exatamente a mesma. A emoção também não desapareceu. Mas o que mudou foi a possibilidade de não precisar agir imediatamente a partir dela.
E começar a aprender a regular nossas emoções começa justamente aí: não é escolher tudo aquilo que vamos sentir, mas ampliar, pouco a pouco, o espaço que existe entre o que sentimos e o que fazemos com aquilo que sentimos.


