Há alguns anos, falar de autocuidado parecia quase um contraponto à vida acelerada. Era um convite para prestar atenção em si mesmo, reconhecer limites, descansar, cuidar do corpo e da saúde mental.
Mas alguma coisa aconteceu nesse caminho e o autocuidado também entrou na lógica da produtividade.
Agora não basta trabalhar bem. É preciso fazer atividade física, dormir oito horas, comer de maneira saudável, cuidar da pele, beber água, meditar, ler, fazer terapia, ter hobbies, manter os amigos por perto, construir uma relação saudável, desenvolver inteligência emocional e, de preferência, ainda encontrar tempo para ficar longe das telas.
Separadamente, quase todas essas recomendações fazem sentido e são realmente importantes. O problema começa quando o conjunto delas se transforma em uma espécie de currículo da pessoa emocionalmente saudável. E então até cuidar de si pode começar a cansar.
A obrigação de estar sempre melhorando
Vivemos cercados pela ideia de que sempre existe uma versão melhor de nós mesmos esperando para ser alcançada.
Podemos ser mais produtivos, mais organizados, mais saudáveis, mais presentes, mais equilibrados, mais conscientes. Podemos melhorar a alimentação, o corpo, a carreira, o casamento, a relação com os filhos, a qualidade do sono, a gestão do tempo e até a maneira como descansamos.
O desenvolvimento pessoal, que poderia ser uma possibilidade, facilmente se transforma em obrigação. E há uma diferença importante entre querer mudar alguma coisa na própria vida e sentir que nunca se tem o direito de simplesmente estar onde se está. Quando tudo pode ser melhorado, é fácil começar a olhar para si mesmo como um projeto permanentemente inacabado.
O descanso deixa de ser descanso e passa a ser uma estratégia para produzir melhor amanhã. A atividade física deixa de ser movimento e prazer e vira uma meta. A alimentação deixa de envolver também afeto, cultura e convivência e passa a ser medida apenas pelo que é permitido ou proibido. Até um hobby pode precisar ser útil: aprender alguma coisa, melhorar uma habilidade, gerar conteúdo, proporcionar desenvolvimento.
É como se já não bastasse tudo isso, precisássemos justificar o tempo e mostrar a nossa evolução.
Quando o autocuidado vira autocobrança
Existe uma pergunta simples que talvez ajude a perceber essa mudança: eu estou fazendo isso porque me faz bem ou porque sinto que deveria estar fazendo?
Às vezes, as duas coisas coexistem. Mas vale observar qual delas está comandando a nossa vida. Porque autocuidado e autocobrança podem até ter comportamentos parecidos por fora.
Duas pessoas podem ir à academia quatro vezes por semana. Uma pode sair de lá sentindo que cuidou do corpo. A outra pode sair pensando que deveria ter treinado mais. Duas pessoas podem fazer terapia. Uma pode utilizar aquele espaço para se conhecer, compreender seus padrões e construir mudanças importantes. A outra pode transformar a própria terapia em mais uma avaliação de desempenho: “Por que ainda sinto isso?”, “Eu já deveria ter superado”, “Porque continuo repetindo esse comportamento?”.
Até a saúde mental pode entrar na lógica da alta performance. Passamos a acreditar que, se fizermos tudo corretamente, conseguiremos administrar perfeitamente nossas emoções, nossos relacionamentos e nossa vida.
Mas não existe rotina capaz de eliminar a tristeza, método de produtividade que nos proteja de todas as frustrações ou quantidade suficiente de autoconhecimento que faça desaparecer a condição humana.
Talvez não precisemos otimizar tudo
Cuidar de si continua sendo muito importante.
Fazer terapia é importante. Exercitar-se também. Dormir melhor, alimentar-se bem, cultivar relações, colocar limites, encontrar momentos de descanso, tudo isso pode tornar a vida realmente melhor.
O problema não está nessas práticas! Está na ideia de que precisamos executar todas elas perfeitamente para finalmente nos tornarmos uma pessoa saudável, equilibrada e realizada.
Talvez cuidar de si também envolva reconhecer que algumas semanas serão desorganizadas. Que haverá dias sem exercício, noites mal dormidas, refeições escolhidas pela praticidade e momentos em que não conseguiremos responder às mensagens de todo mundo.
Nem todo tempo precisa ser produtivo. Nem todo hobby precisa desenvolver uma competência. Nem toda experiência precisa ensinar alguma coisa. Nem toda dificuldade precisa imediatamente se transformar em uma oportunidade de crescimento. E nem toda versão de nós mesmos precisa ser melhor do que a anterior.
Às vezes, uma vida suficientemente boa pode ser justamente aquela em que conseguimos abandonar, pelo menos de vez em quando, a obrigação de melhorá-la o tempo todo. Porque existe uma diferença entre construir uma vida melhor e passar a vida inteira se preparando para finalmente começar a vivê-la.


