Depois de sete anos e meio sem grandes ruídos entre a base governista e a equipe econômica do governo Ratinho Junior, a audiência pública de prestação de contas da Secretaria da Fazenda, realizada nesta terça-feira (26) na Assembleia Legislativa do Paraná, revelou os primeiros sinais mais explícitos de tensão política dentro do grupo que sustentou o governo desde 2019.
Pela primeira vez desde o início da gestão, deputados do PL e do Novo adotaram um tom mais crítico diante da exposição dos números do Estado feita pelo secretário da Fazenda, Norberto Ortigara. Até então, os questionamentos mais duros nas audiências fiscais partiam quase exclusivamente da bancada do PT. Agora, partidos que integraram a base do governador durante praticamente todo o mandato começam a ensaiar uma postura mais oposicionista — justamente no momento em que o cenário eleitoral de 2026 começa a se desenhar.
O movimento é claro: PL e Novo, que sustentam a pré-candidatura do senador Sergio Moro (PL) começam, agora, a adotar postura crítica, questionadora e de fiscalização em relação ao governador Ratinho Junior (PSD), que lançou seu ex-secretário de Infraestrutura Sandro Alex (PSD) como pré-candidato a sucedê-lo.
Nos bastidores da Assembleia, deputados governistas já classificam a mudança de postura como “oportunista”, lembrando que os partidos agora críticos integraram a base de apoio do governo durante todo o período de forte expansão de gastos, investimentos e operações financeiras do Estado.
“Fiscalizar é uma das funções dos deputados”, lembrou Paulo Gomes (PL) ao questionar Ortigara. Mas o secretário da Fazendo presta contas à Assembleia a cada quadrimestre (três vezes ao ano) e nas 10 prestações de contas anteriores, na atual legislatura, apenas deputados do PT e do PDT fizeram questionamentos críticos à Fazenda.
Ortigara, que estava acostumando a participar de sessões esvaziadas, apresentar seus números, ouvir elogios da bancada de apoio e responder a alguns questionamentos da oposição – tudo em pouco mais de uma hora, passou toda a tarde debatendo com o líder da oposição, Arilson Chiorato (PT), mas, também, com Paulo Gomes, Delegado Jacovós (PL), Tito Barrichello (PL) e Fábio Oliveira (Novo).
O principal foco dos questionamentos esteve justamente no caixa estadual e na capacidade do governo de cumprir o volume bilionário de investimentos e convênios anunciados nos últimos meses — especialmente pela Secretaria das Cidades, comandada até abril por Guto Silva (PSD), outro nome frequentemente citado no tabuleiro eleitoral de 2026.
Os números apresentados pela Secretaria da Fazenda mostram um cenário ambíguo. De um lado, o governo comemora um recorde histórico de investimentos: R$ 3,8 bilhões empenhados no primeiro quadrimestre, maior volume para o período em 26 anos. De outro, o Estado fechou o período com despesas totais de R$ 30,3 bilhões diante de uma receita de R$ 26,9 bilhões — crescimento nominal de apenas 1% em relação ao ano passado, abaixo da inflação do período.
O deputado Delegado Jacovós (PL) questionou diretamente a redução do caixa livre do Estado, que caiu de R$ 10,5 bilhões para R$ 8,5 bilhões em apenas quatro meses. Segundo o secretário Norberto Ortigara, a queda ocorreu principalmente em função do pagamento de convênios e da redução de restos a pagar.
Já o deputado Paulo Gomes (PL) mirou especificamente os anúncios feitos pela Secretaria das Cidades. Ele questionou o grande volume de convênios anunciados em pleno período pré-eleitoral e levantou dúvidas sobre a real capacidade financeira do Estado de executar todos os compromissos assumidos junto aos municípios.
A resposta da equipe econômica foi cautelosa. Ortigara afirmou que “nem todos os pedidos apresentados pelos municípios se transformam em convênios imediatos” e garantiu que o governo mantém controle fiscal para evitar compromissos sem cobertura financeira. A declaração, porém, reforçou uma preocupação que já circula entre prefeitos: a possibilidade de parte dos anúncios feitos nos últimos meses não sair efetivamente do papel.
Outro ponto explorado pelos deputados do PL foi o aumento das operações de crédito contratadas pelo Estado mesmo diante de um caixa considerado robusto. Jacovós e Tito Barichello questionaram a necessidade de novos empréstimos internacionais, além do impacto previdenciário e da sustentabilidade fiscal no médio prazo.
O deputado Fabio Oliveira (Novo) também adotou tom mais crítico ao questionar a manutenção da nota A do Paraná na Capacidade de Pagamento (Capag), indicador usado pelo Tesouro Nacional para avaliar a saúde fiscal dos Estados.
Embora o governo ainda mantenha ampla maioria na Assembleia, a audiência evidenciou uma mudança importante no ambiente político. Pela primeira vez, partidos que sustentaram a gestão Ratinho Junior durante todo o ciclo de forte arrecadação e expansão de investimentos começam a testar um discurso de fiscalização mais incisivo — justamente às vésperas de uma eleição em que precisarão se apresentar ao eleitor como alternativa ao grupo que ajudaram a governar por quase oito anos.


