A decisão de Rafael Greca (MDB) de aceitar a condição de candidato a vice-governador na chapa encabeçada por Sandro Alex (PSD) está longe de encerrar a equação política da sucessão estadual. Ao contrário. A composição que resolve um impasse com o MDB pode ter criado outro, potencialmente mais delicado, dentro da própria base do governador Ratinho Junior (PSD).
A exigência do MDB para abrir mão da candidatura própria ao Governo do Estado foi colocada na mesa: a garantia de uma vaga ao ex-senador Alvaro Dias na disputa pelo Senado, na mesma chapa. Com a costura aparentemente consolidada, o acordo atende aos interesses do MDB, mas produz efeitos imediatos sobre um compromisso político assumido meses antes com o presidente da Assembleia Legislativa, Alexandre Curi (Republicanos).
Embora nunca tenha existido o compromisso de candidatura única ao Senado, o entendimento construído entre Ratinho Junior e Curi previa outro desenho. Caso a chapa tivesse dois candidatos ao Senado, o segundo nome seria do próprio PSD e a composição seria debatida em conjunto com o presidente da Assembleia. A inclusão de Alvaro Dias altera completamente esse cenário.
Mais do que isso, interlocutores próximos a Curi afirmam que ele não foi consultado sobre a mudança de rota. No mesmo dia em que a informação ganhou força nos bastidores, Alexandre Curi cancelou a agenda que cumpriria ao lado de Ratinho Junior e Sandro Alex, em Foz do Iguaçu, movimento que imediatamente alimentou especulações sobre o ambiente interno da chapa.
Nos bastidores, a avaliação é de que a nova composição pode representar o episódio mais sensível de uma sequência de situações em que Curi optou por preservar a unidade do grupo político, mesmo diante de decisões que contrariavam seus próprios interesses.
O primeiro desses momentos ocorreu ainda no início do ano. Pré-candidato ao Governo do Estado pelo PSD, Curi recebeu do governador o compromisso de que a definição do nome governista ocorreria até abril, antes do encerramento da janela partidária e do prazo de desincompatibilização. Naquele momento, disputava internamente espaço com Rafael Greca e com o então secretário das Cidades, Guto Silva.
O prazo passou sem definição. Diante da indefinição, tanto Curi quanto Greca deixaram o PSD para preservar seus projetos políticos. Ainda assim, mesmo durante a mudança partidária, Curi manteve um compromisso considerado importante pelo Palácio Iguaçu: não estimulou a saída de deputados estaduais do PSD, apesar de haver interesse de diversos parlamentares em acompanhá-lo.
Pouco tempo depois, Ratinho Junior surpreendeu o meio político ao lançar Sandro Alex como pré-candidato ao Governo. Novamente, abriu-se espaço para que Alexandre Curi construísse um caminho próprio ou até buscasse entendimento com outros grupos políticos. Em vez disso, aceitou disputar o Senado na chapa governista.
A partir daquele momento, assumiu protagonismo na construção da candidatura de Sandro Alex. Convenceu mais de 200 prefeitos que defendiam sua candidatura ao governo a aderirem ao projeto do PSD, percorreu o interior do Estado apresentando um candidato ainda pouco conhecido do eleitorado e passou a atuar como um dos principais articuladores da campanha.
Sua participação também foi decisiva na ampliação da base de apoio da chapa. Pelo bom trânsito que mantinha com diferentes lideranças, participou diretamente das conversas que aproximaram o MDB da aliança governista. Da mesma forma, teve atuação relevante na consolidação do apoio da Federação União Progressista, movimento reconhecido publicamente pelo deputado federal Ricardo Barros, que atribuiu a Alexandre Curi a articulação política que viabilizou o acordo.
É justamente esse histórico que faz crescer, entre aliados, a percepção de que a nova composição impõe um elevado custo político.
A eventual entrega de duas das quatro vagas majoritárias ao MDB também desperta desconforto dentro da Federação União Progressista. Integrantes do grupo lembram que a federação cede mais de dois minutos de tempo de televisão à chapa — mais que o dobro do MDB — e, ainda assim, não indicou nomes para nenhuma das posições principais, limitando-se à suplência da candidatura de Alexandre Curi. Caso o desenho da chapa seja alterado, cresce a expectativa sobre como a federação reagirá à redistribuição dos espaços.
Apesar das intensas movimentações desta quinta-feira, Alexandre Curi permaneceu em silêncio. Procurado por diferentes veículos de imprensa, não respondeu aos contatos. Integrantes de sua assessoria e dirigentes do Republicanos limitaram-se a informar que o partido fará uma avaliação da nova conjuntura antes de definir sua posição durante a convenção estadual marcada para a noite da próxima segunda-feira (3).
Até lá, permanece a principal dúvida da política paranaense neste momento: se a acomodação construída para ampliar a chapa governista será suficiente para mantê-la unida ou se abrirá uma crise justamente no grupo que, até aqui, parecia o mais sólido da sucessão estadual.


