Passadas duas das quatro sessões da audiência pública da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) sobre a nova concessão da Malha Sul de ferrovias, Curitiba e o Paraná mostram que estão unidos no pedido pela inclusão no pacote de uma obra considerada crucial para a capital: a construção dos ramais leste e oeste do contorno ferroviário. A intenção é tirar os trens de carga de dentro da cidade, reduzindo acidentes, mortes e melhorando a mobilidade urbana.
Nesta segunda-feira (27), em Curitiba, a sessão da audiência ocorreu no auditório do Instituto de Engenharia do Paraná (IEP), reunindo autoridades como o prefeito Eduardo Pimentel (PSD), o senador Sergio Moro (PL) e os deputados federais Gleisi Hoffmann (PT), Ricardo Barros (Progressistas) e Beto Preto (PSD).
Também participaram representantes do Governo do Paraná, bem como do setor produtivo, como o superintendente João Arthur Mohr, da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), e membros do Conselho de Desenvolvimento e Integração Sul (Codesul) e da Ferroeste.
Além do pedido pela inclusão de mais obras estruturantes no pacote, como a construção de uma nova ligação entre Guarapuava, Irati e Lapa, para superar o gargalo da Serra da Esperança, e a ampliação dos pátios de cruzamento para permitir a circulação de composições mais longas, os políticos e representantes paranaenses foram unânimes: o contorno ferroviário de Curitiba não pode estar fora da nova concessão, que vai dar ao vencedor do leilão o direito de administrar a Malha Sul por 30 anos.
Para o novo contrato, que inclui 4.227 quilômetros de trilhos, foi feita uma divisão em três corredores ferroviários independentes: Paraná–Santa Catarina (1.502 quilômetros), Rio Grande (880 quilômetros) e Mercosul (1.865 quilômetros). Destes, o primeiro é concentra cerca de 78% da demanda ferroviária da Malha Sul, sendo o principal. Dentro dele, 80% das cargas são destinadas aos Portos de Paranaguá e São Francisco do Sul, que são fundamentais para o escoamento da produção agroindustrial brasileira.
A concessão atual, administrada pela Rumo Logística, termina em fevereiro de 2027 e também teve a duração de 30 anos.
A importância do contorno ferroviário de Curitiba
Em sua fala durante a sessão, o prefeito Eduardo Pimentel lembrou que Curitiba é último grande centro urbano do Brasil em que o transporte de cargas interfere de forma tão intensa na dinâmica da cidade. Isso se reflete nos números, com a liderança por dois anos seguidos no ranking de acidentes com trens, em levantamento feito pela própria ANTT.
“Como curitibano e prefeito da minha cidade, peço, em nome dos cidadãos de Curitiba, que a nova concessão inclua o projeto executivo e a execução das obras dos contornos ferroviários Oeste e Leste. Hoje, a ferrovia corta a Região Norte da cidade, passando pela Anita Garibaldi e Bacacheri, e também a Região Leste, atingindo áreas como Cajuru e Sítio Cercado, no trajeto em direção ao Porto de Paranaguá. Essa realidade provoca impactos profundos na mobilidade urbana e na qualidade de vida da população”, afirmou.
Pimentel explicou que a cidade já conta com alguns projetos e ideias para dar destino aos trilhos que serão abandonados, caso os contornos sejam concluídos.
“Uma delas é a implantação de um VLT [Veículo Leve sobre Trilhos] para o transporte de passageiros, o que faz muito sentido por se tratar de regiões altamente urbanizadas. Também podemos transformar parte desse traçado em parques lineares, vias binárias, ciclovias e projetos habitacionais, especialmente no ramal Leste, que atravessa áreas de grande densidade populacional”, concluiu.
O pleito pelo contorno também foi reforçado pelo senador Sergio Moro. Além de defender as obras estruturantes, com o desvio da Serra da Esperança, ele também destacou a importância de tirar os trilhos das áreas urbanas, mencionando Curitiba e Ponta Grossa.
“Curitiba tem um pleito importante e pode ser colocada como prioridade diante de tantos acidentes registrados, mas não é a única cidade. Ponta Grossa e diversos outros municípios também precisam de contornos ferroviários. Estamos falando de uma concessão de 30 anos e seria frustrante limitar esses investimentos apenas à capital”, disse ele.
Além da defesa de outras obras estruturantes, a deputada Gleisi Hoffmann mencionou ainda a necessidade de construir uma nova ligação entre Cascavel e Guaíra, no Oeste.
“Temos que incluir a retirada dos trilhos de trem da área urbana de Curitiba. Esta é a nossa grande oportunidade. A população e o setor produtivo esperam esta mudança há muitos anos. Junto com o prefeito Eduardo Pimentel, nos reunimos há alguns dias com o ministro dos Transportes, e ele afirmou que tem o compromisso de colocar no projeto o Contorno Ferroviário de Curitiba”, completou.
Setor produtivo defende necessidade de ampliar e fortalecer o modal ferroviário
Na sessão da audiência pública, o representante da Fiep, João Arthur Mohr, reiterou o posicionamento da entidade de que a nova concessão tem que incluir obras e gestão capazes de ampliar a competitividade da indústria e impulsionar o desenvolvimento do Paraná.
“O modal ferroviário é extremamente necessário para a competitividade paranaense. Nossos produtos do agronegócio e os contêineres de exportação são transportados com muito mais eficiência pela ferrovia. É um modal mais barato e mais seguro, que também reduz o número de caminhões nas estradas e, consequentemente, os acidentes e os impactos ambientais”, completou.
A primeira sessão da audiência aconteceu na sede da ANTT, em Brasília, em 16 de julho. Além de Curitiba, a agência vai realizar sessões também em Porto Alegre, no dia 29 de julho, e em Florianópolis, no dia 31 de julho.
Em adição às reuniões presenciais, as contribuições online para o projeto podem ser feitas até 10 de agosto, por meio do portal ParticipANTT.


