Quando ser comum virou um problema…
Vivemos uma época curiosa. Nunca tivemos tantas oportunidades de viajar, aprender, trabalhar, empreender e compartilhar nossas conquistas. Mas, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão cansados de tentar acompanhar tudo isso.
Parece que uma vida comum deixou de ser suficiente.
Hoje, não basta ser um bom profissional. É preciso amar o que faz. Não basta descansar. O descanso precisa ser produtivo. Não basta viajar. O destino tem que render fotos. Não basta viver. É preciso mostrar que está vivendo algo extraordinário.
Sem perceber, passamos a acreditar que o valor da nossa vida depende do quanto ela impressiona.
As redes sociais intensificaram essa sensação. Afinal, elas mostram apenas os melhores momentos das pessoas. Comparar a nossa rotina, com seus desafios e imperfeições, com a vitrine cuidadosamente editada dos outros é uma comparação injusta — e, ainda assim, fazemos isso todos os dias.
O psicólogo Ronald D. Siegel, autor de O Dom Extraordinário de Ser Comum, chama atenção para essa armadilha. Segundo ele, o sofrimento não nasce por termos uma vida comum, mas por acreditarmos que isso diminui o nosso valor.
Talvez esse seja um dos maiores desafios da nossa época: reaprender a enxergar beleza no cotidiano.
Uma conversa depois do jantar, um café sem pressa, uma tarde com os filhos, um encontro com amigos ou um momento de silêncio dificilmente viralizam nas redes sociais. Mas são justamente essas experiências que costumam construir as melhores lembranças da nossa vida.
Nossa identidade não é formada apenas pelos grandes acontecimentos. Ela nasce dos pequenos gestos repetidos todos os dias, das relações que cultivamos, dos hábitos que mantemos e da forma como atravessamos a rotina.
Talvez a felicidade não esteja em viver uma vida extraordinária o tempo todo. Talvez ela esteja em perceber que o extraordinário pode existir justamente na maneira como escolhemos viver o comum.
Porque, no fim das contas, uma vida cheia de significado não precisa ser perfeita. Ela só precisa ser verdadeiramente vivida.
Clarissa Ribeiro é psicóloga clínica formada pela PUCPR em 2006. Especialista em Psicologia Clínica – Concepção Sistêmica e em Psicologia do Esporte pela Universidade Positivo. Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) pela Fabras. Formação em Psicopatologia pelo Grupo PBE. Com mais de 20 anos de experiência na área clínica atende, atualmente, de forma online e presencial em Curitiba-PR. Produtora de conteúdos online a partir de seus conhecimentos técnicos e da vivência. @clarissaribeiropsicologa


