O mundo político brasileiro parece respirar aliviado com o esfriamento das tratativas de Polícia Federal (PF) e Procuradoria-Geral da República (PGR) com a defesa de Daniel Vorcaro para a celebração de um acordo de delação premiada. Afinal, a suposta (sim, o direito me obriga) teia de relações do banqueiro iria desde o todo poderoso Supremo Tribunal Federal (STF), passando pelo Congresso Nacional e autoridades do Executivo.
Jantares nababescos, caronas em jatinhos, presentes milionários, negócios imobiliários com resorts, ingressos para shows de divas do Pop, contratos para prestação de serviços advocatícios por valores astronômicos… O ex-dono do Banco Master certamente buscou a proteção de pessoas influentes – e de todos os espectros políticos – para blindar a sua suposta (sim, de novo, o direito me obriga) rede de puro e simples estelionato contra cidadãos brasileiros.
Ainda impossível de medir em sua totalidade, o fato é que o esquema supostamente (de novo, o direito me obriga) comandado por Vorcaro resultou em prejuízos da ordem de R$ 52 bilhões apenas ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo que foi criado para proteger pequenos investidores.
Confesso que existe em mim (e claro que não é só o meu caso) um desejo que toda essa teia de relações espúrias e criminosas do suposto (direito, de novo) estelionatário Daniel Vorcaro seja exposta. Doa a quem doer, caia o ministro do STF que tiver que cair, o presidente de partido que for e o ex-líder de governo que for, o pré-candidato à Presidência que for. Mas uma coisa que não podemos perder de vista é: o líder desse suposto esquema tem que passar vários anos na cadeia.
Vorcaro me parece ter operado a partir da premissa de que, mesmo que seu suposto esquema fosse descoberto, teria vivido a vida dos sonhos por alguns anos e desviado e ocultado dinheiro suficiente para desfrutar de conforto após cumprir sua pena. Certamente, essa grana toda também lhe garantiria a melhor defesa criminal que o dinheiro pode comprar, com direito a chicanas intermináveis e o tradicional relaxamento da prisão em algum momento futuro. Mas, ei, para que investigar a origem do dinheiro está pagando advogados, né? Certamente isso iria enfurecer a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
A certeza da impunidade e do custo/benefício de uma pena leve – ou no caso de se ter um bom advogado, ser postergada até a velhice – é um fator que me parece impulsionar uma profusão de esquemas de estelionato pelo Brasil. E ainda tenho uma sensação incômoda de que esse tipo de crime é cercado de tolerância em nosso País. Uma derivação da nefasta “esperteza” brasileira, do ditado “todo dia um malandro e um otário saem de casa. Quando eles se encontram, dá negócio”.
Voltando para o caso de uma hipotética delação, é fato que o acordo só sairia com uma redução substancial de pena para o ex-banqueiro. Muito provavelmente para o nível “tapinha nas costas” e com prisão cumprida em uma estrutura semelhante a um hotel 2 estrelas – certamente um sofrimento para ele, mas algo absolutamente normal para a esmagadora maioria dos brasileiros. E devo dizer que aquele meu desejo de que toda a teia seja exposta vai caindo por terra. Confesso, quero ver o responsável por esse suposto esquema hediondo apodrecer na cadeia.
Vorcaro supostamente (sim, vamos ter que dizer isso por uns 20 anos, até sair o trânsito em julgado) viveu “50 anos em 5”. Flertou e namorou com modelos e atrizes… Fez festas inadmissíveis até para bilionários, incluindo uma que custou R$ 216 milhões na Itália… Pagou e degustou, com poderosos, uísques que custam um salário de juiz (com penduricalhos) a garrafa… E tudo isso supostamente com dinheiro que não era seu! Que deixou um rombo no FGC, que prejudicou fundos de pensão pelo Brasil. Que, sim, foi tirado de milhares de brasileiros e brasileiras.
Permitir que tudo isso seja resolvido com um par de anos na cadeia não é aceitável e não pode ser tolerado, com ou sem delação premiada, com ou sem uma esperada “derrubada da República”. É um dever punir propriamente e com MUITOS ANOS de cadeia o estelionato supostamente cometido nesse esquema gigantesco e nefasto. E isso teria que ser – e espero que seja – inegociável.


