A pressão do governador Carlos Massa Ratinho Junior e do comando estadual do PSD tem aumentado e o prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel, está cada vez mais próximo de aceitar a missão de renunciar ao cargo — menos de um ano e meio após assumi-lo — para disputar o Governo do Paraná.
Se esse movimento se confirmar, a administração da capital passará automaticamente para o vice-prefeito, Paulo Martins, atualmente no Partido Novo, que já anunciou rompimento com o PSD e articula composição com Sergio Moro.
Nos bastidores, cogita-se até uma eventual troca de partido de Martins para manter Curitiba sob influência do grupo do governador. Mas, há um problema político evidente: o perfil do vice-prefeito destoa do tom mais moderado adotado por Ratinho, Pimentel e pelo próprio PSD.
A trajetória de Paulo Martins não se construiu na administração pública local. Jornalista de origem, ganhou projeção nacional como comentarista político e, posteriormente, como deputado federal.
Seu crescimento não se deu debatendo transporte coletivo, urbanismo ou políticas sociais — temas centrais para uma capital como Curitiba. Mas, a partir de pautas ideológicas, disputas constitucionais e embates políticos de alcance nacional.
O próprio Martins reconheceu essa vocação. Em 2024, ao ser questionado sobre uma eventual candidatura à prefeitura, afirmou que o cargo “nunca foi seu objeto de luta na política”, destacando que sua atuação estava mais ligada a temas constitucionais.
Meses depois, aceitou ser vice-prefeito, em uma composição que uniu PSD e PL — seu antigo partido — e ajudou a neutralizar a influência direta do ex-presidente Jair Bolsonaro na eleição municipal.
Da guerra ideológica à linha de sucessão
O perfil político de Martins foi consolidado durante seu mandato na Câmara dos Deputados. Alinhado ao campo mais ideológico da direita, construiu sua base com forte identificação com o bolsonarismo.
Defendeu pautas como armamento da população, endurecimento penal, oposição ao aborto e às drogas, além de uma agenda econômica liberal, baseada em privatizações e redução do Estado.
No Congresso Nacional, foi protagonista na defesa da pauta do voto impresso e, durante a pandemia de Covid-19, posicionou-se contra a obrigatoriedade da vacina e em defesa do uso de medicamentos sem eficácia comprovada.
Vi no Jornal da Globo uma descrição dos efeitos colaterais da Cloroquina e da Hidroxocloroquina. A partira daí, parece que é melhor dar um tiro na própria cabeça do que usar esses medicamentos. Não sei como o pessoal que usou para combater a malária sobreviveu.
— Paulo Eduardo Martins (@PauloMartins10) May 21, 2020
É uma trajetória marcada muito mais pela guerra ideológica que polariza o País do que pela experiência na gestão de políticas públicas urbanas.
O vice que a campanha precisou esconder
A presença de Paulo Martins na chapa de Eduardo Pimentel nunca foi unanimidade na eleição de 2024.
Se, por um lado, ajudava a consolidar apoio à direita, por outro carregava um perfil que gerava resistência em parte do eleitorado urbano. No primeiro turno, adversários exploraram sua associação com o bolsonarismo mais ideológico e levantaram críticas sobre sua baixa exposição na campanha.
No segundo turno, houve mudança de estratégia. Martins passou a aparecer mais e teve sua imagem incorporada de forma mais direta ao discurso eleitoral.
O episódio evidenciou uma ambiguidade: ativo político em um campo, passivo em outro — justamente no eleitorado mais decisivo da capital.
Ao final da eleição, o tom técnico e moderado de Eduardo Pimentel prevaleceu sobre o discurso radical ideológico de Cristina Graeml. Mas, pouco mais de um ano depois, o cenário pode se inverter.
Com a possível saída de Pimentel, Curitiba pode ser governada por um político cuja trajetória foi construída fora da gestão municipal, marcada por forte atuação ideológica e cercada por controvérsias públicas, exatamente o perfil que o eleitor rejeitou na urna há pouco mais de um ano.


