Já reparou como a inovação é uma das palavras mais repetidas no ambiente corporativo? Ela está em missões, valores e apresentações de grandes empresas, mas, quando olhamos de perto, percebemos que em muitos casos ela ainda é apenas um discurso (sim, um discurso). O verdadeiro desafio é transformar inovação em prática diária – e torná-la parte da cultura organizacional.
Acredito e tenho defendido tanto em sala de aula quanto nas organizações que visito que só conseguimos avaliar se uma empresa é realmente inovadora quando observamos a prática.
Isso significa que não basta ter um departamento de inovação ou apostar em tecnologia de ponta. Inovar precisa ser sistêmico: atravessar o administrativo, o financeiro, a liderança e as relações entre pessoas. Caso contrário, o risco é termos inovação concentrada em silos ou ilhas, sem impacto real no negócio.
O que significa, na prática, ter uma cultura de inovação?
Vejo a cultura de inovação formada por artefatos, comportamentos e regras do jogo. Ela exige políticas claras, espaços para experimentação e modelos de reconhecimento para quem se arrisca a propor soluções. Assim, esperar que todos inovem de forma espontânea é ingenuidade: a maioria das pessoas precisa enxergar um benefício claro (seja progressão de carreira, seja bônus) para mudar comportamentos.
É por isso que uma gestão de talentos que valorize perfis diversos (idealizadores, executores, auditores) é fundamental. Precisamos de quem sonha, de quem entrega e de quem testa os limites. Sem esse equilíbrio, a inovação se perde.
O papel da liderança e a importância da mensuração
Quando o assunto é cultura organizacional, a liderança exerce papel estratégico: ela tem a missão de proporcionar espaço, estimular a experimentação e conectar as iniciativas ao core business. Se a inovação não chega ao board, dificilmente se tornará prioridade de longo prazo.
Além disso, inovação precisa ser mensurada, não apenas pelo lançamento de produtos, mas por indicadores como a média de ideias geradas por colaborador ao ano ou a incorporação de novos processos internos (a metodologia escolhida pode variar bastante).
Essa visão está alinhada ao estudo O Futuro da Gestão da Inovação 2025, elaborado pela Inventta em parceria com a Fundação Dom Cabral, que mostrou que 82% das empresas brasileiras já adotam projetos de melhoria contínua e 80% estruturaram uma estratégia de inovação formalizada.
Esses números reforçam que medir e institucionalizar a inovação é hoje uma condição básica de competitividade. Aqui, cabe uma observação: medir inovação vai além de “contar os produtos lançados nos últimos três anos”. KPIs como taxa de geração de ideias, tempo médio de ciclo da inovação ou percentual de projetos com validação de mercado (MVPs) são mais eficazes para entender a maturidade da cultura inovadora. Já modelos como o Innovation Accounting e frameworks como o Innovation Pipeline ajudam empresas a medir progresso em ambientes de alta incerteza — substituindo métricas de vaidade por aprendizado validado.
Gestão da inovação: práticas mais adotadas pelas empresas
| Práticas mais adotadas (2025) | % de empresas |
| Melhoria contínua | 82% |
| Estratégia de inovação formal | 82% |
| Conceito de inovação definido | 78% |
| Jornada de experiência | 76% |
| Budget dedicado à inovação | 76% |
Fonte: Futuro da Gestão da Inovação 2025 – Inventta
Barreiras e oportunidades
O mesmo estudo apontou que os principais desafios permanecem os mesmos: pressão por resultados de curto prazo (46%), restrição orçamentária (41%) e aversão ao risco (37%).
Isso mostra que, em linhas gerais, a inovação não falha pela falta de ideias, mas sim pela dificuldade em sustentá-las diante das urgências diárias e da cultura do medo de errar
Para romper esse ciclo, acredito no chamado reforço positivo. O que ele significa? Significa dar visibilidade a cases internos, premiar equipes que testam soluções e valorizar o aprendizado, mesmo quando os resultados não são imediatos.
Empresas como a Natura e o Boticário (apenas para citar o setor de beleza e cuidados pessoais) têm mostrado como alinhar sustentabilidade à inovação pode gerar valor consistente, enquanto líderes como Ladmir Carvalho, CEO da Alterdata Software, provam que uma mentalidade inovadora aplicada de forma prática e com governança sólida é capaz de transformar negócios tradicionais em referências de mercado – e isso também se aplica aos micros e pequenos negócios, guardadas as devidas proporções de capacidade de investimento.
Inovação é estratégia, não evento
Eventos de inovação têm seu valor, mas sozinhos não criam cultura. É necessário um sistema vivo de práticas, indicadores e estímulos. Vejo três pilares fundamentais para sustentar esse processo dentro das organizações:
- Capacidade de resposta às mudanças externas:não se trata de prever o futuro, mas de construir agilidade para reagir a ele;
- Rotinas e espaços de transformação: ambientes em que ideias possam virar projetos, serviços ou produtos com acompanhamento real;
- Busca ativa de competências: seja desenvolvendo internamente, seja por meio de parcerias, aquisições ou programas colaborativos.
Construção de longo prazo
Para finalizar, penso que inovar não seja um ato isolado, mas uma construção de longo prazo. Não podemos mais tratar inovação como campanha ou um departamento específico. Ela precisa estar no DNA da organização, atravessando decisões estratégicas e comportamentos diários.
Transformar a cultura é, talvez, a mais poderosa forma de inovar. Porque quando a cultura muda, a inovação deixa de ser exceção — e se torna rotina. E aí, sim, o futuro começa a ser moldado hoje.
Rafael de Tarso é palestrante, consultor e professor com mais de 20 anos de experiência em inovação, transformação digital e Indústria 4.0. Já impactou mais de 180 empresas e 6 mil alunos em cursos, workshops e mentorias em todo o Brasil. Atua como assessor na Defensoria Pública do Paraná, liderando iniciativas de inovação e transformação digital no judiciário. Cofundador de startups e programas de inovação, também é professor em MBAs da FGV, PUCPR e ISAE-FGV.


